
[Prévia] Os dois lados da vitória
Luiz Felipe Pedone
17/06/2006 às 21h
Amanhã Brasil e Austrália entram em campo podendo decidir o primeiro classificado do Grupo F. Os australianos estrearam com vitória sobre o Japão e os brasileiros bateram a Croácia. Ambas as nações deviam estar felizes e confiantes, certo? Mas não é bem isso que acontece.
O Brasil venceu, mas não convenceu. O ataque pouco eficiente e a atuação abaixo do esperado de todos os integrantes do 'Quadrado Mágico' trouxeram mais uma vez a desconfiança aos torcedores canarinhos. Além disso, os problemas físicos de Ronaldo continuaram sendo destaque na mídia. O engraçado é ouvir papo de desconfiança na seleção sem ter ligação com a defesa. De qualquer modo, o favoritismo é brasileiro. Mas a empolgação de antes acabou.
Os Socceroos ainda comemoram a histórica vitória sobre o Japão e começam a acreditar em classificação. Para o jogo, o técnico Guus Hiddink, tido como o "craque" do time, deve poupar os jogadores que receberam cartão amarelo contra o Japão, prevendo a possível decisão da segunda posição do Grupo com a Croácia, no dia 22. Os jogadores que receberam amarelo no primeiro jogo são: Vince Grella, Craig Moore, Tim Cahill e John Aloisi. Os dois últimos entraram no segundo tempo e marcaram os gols da Austrália.
O árbitro da partida será o alemão Markus Merk, que ainda não apitou nesta Copa do Mundo. No seu histórico podemos ressaltar: é árbitro da FIFA desde 1992, apitou três jogos na Copa de 2002 e a final da EURO 2004, entre Portugal e Grécia.
[O Jogo]
por Humberto Fernandes
Brasil e Austrália fizeram o único jogo da segunda rodada da Copa entre duas equipes que venceram na primeira rodada. A missão do treinador Guus Hiddink era fazer seus jogadores acreditarem que poderiam arrancar um empate ou pelo menos dificultar a vida brasileira. Foram além: acreditaram até mesmo na vitória. E aí a Austrália perdeu.
Os australianos marcavam individualmente, mas deixavam espaços. O Brasil, que não atacava pelas laterais, embolava no meio-de-campo. Tudo que o adversário queria, principalmente porque o ataque brasileiro não se movimentava, facilitando a marcação.
Todas as bolas de perigo do time brasileiro passavam pelos pés de Kaká, novamente o melhor em campo. Ronaldinho Gaúcho, sumido, de novo ficou mal posicionado em campo. Já Ronaldo ex-Fenômeno esteve melhor que contra a Croácia, mas também não tinha como ser pior.
A Austrália atacou principalmente pela direita, explorando a avenida Cafu no setor direito da defesa brasileira. A Croácia havia feito o mesmo. Somente o treinador Pé-de-Uva ainda não percebeu a fragilidade do capitão da Seleção. Cafu é um convite ao ataque adversário. Ainda na defesa, péssimo jogo de Lúcio e Emerson. O zagueiro não ganhou nada de cabeça e o volante deixou um buraco à frente da zaga, tanto que os australianos chutaram uma infinidade de vezes de fora da área. Hoje não houve motivo para elogio, somente sustos.
Talvez se os australianos explorassem mais as bolas altas na área poderiam ter encontrado o gol. Ainda mais com as lambanças protagonizadas no melhor estilo Dida. Se o treinador Hiddink tivesse escalado Kewell desde o princípio o time da Austrália teria melhor qualidade no ataque.
Um parágrafo à parte para Zé Roberto -- e não é implicância minha. No primeiro tempo ele foi inútil, pois não tinha quem marcar e não tem qualidade para sair jogando e apoiar o ataque. É sempre assim: os adversários não atacam o Brasil com tantos homens de forma que o meio-de-campo precise de dois marcadores. No segundo tempo, com Emerson morto, Zé Roberto passou a dar combate e apareceu no jogo. Tanto que foi eleito pelos homens da FIFA o melhor jogador em campo. Deve ser piada. A questão é: por que manter um marcador no time se ele não tem quem marcar? Se é assim, melhor escalar o Juninho Pernambucano, que também marca mas sabe jogar futebol. Como o ataque brasileiro não se movimenta e o destaque do time tem sido o Kaká, vindo de trás, Juninho seria mais uma dessas opções, chegando de trás para chutar a gol ou dar qualidade no passe.
Adriano marcou o gol da vitória brasileira nos primeiros minutos do segundo tempo, chutando de fora da área após passe de Ronaldo. O time brasileiro repetia os mesmos erros e a Austrália tomava conta do jogo, desperdiçando vários gols. Então Pé-de-Uva trocou Ronaldo por Robinho e o ataque melhorou, passando a se movimentar mais pelo campo. Mas essa melhora coincidiu com o momento em que os australianos se mandaram de vez para o ataque buscando o empate. Ou seja, foi uma soma de fatores.
Nos últimos minutos, Robinho acertou a trave e Fred, que entrara no lugar de Adriano, aproveitou o rebote sozinho na pequena área para ampliar. O Brasil ganhou suado, de novo sem convencer. E com um agravante: o árbitro, que na dúvida sempre apitava a favor do time de Ricardo Teixeira, membro da comissão de arbitragem da FIFA.
Os mesmos erros do primeiro jogo, vitória com gol de fora da área graças ao talento individual, a sorte de enfrentar um adversário determinado porém sem muita técnica. Essa é a irritante Seleção Brasileira.
Thiago Leal
Como já era de se esperar, uma exibição um pouco melhor que a primeira partida. Assim foi este Brasil X Austrália. A partida, no entanto, não serviu para grandes progressos: o time australiano, embora tenha muita garra e vontade, mostrou não ter ténica nenhuma - coisa que não era nenhuma novidade para quem assistiu às partidas eliminatórias onde os australianos eliminaram a celeste uruguaia.
A princípio, todo time parecia buscar o jogo coletivo com Ronaldo. Mas o Fenômeno, novamente, mostrou que seu problema não é apenas físico, mas também técnico. Fora um lance ou outro de habilidade, como o chapéu e passe para Kaká aos 3 minutos de jogo, Ronaldo mostrou que, marcado ou não, seu domínio de bola já não é o mesmo. Se movimentou mais, desceu para buscar a bola. Pouco adiantou.
Ronaldinho Gaúcho se saiu um pouco melhor que a partida contra a Croácia. No entanto, ainda foi muito mal em campo. Sumido, mal aparecia no jogo. Errou muitos passes, perdeu a bola quando tentou fazer seus malabarismos e mostrou que, diferentemente do futebol sem marcação da Liga Espanhola, uma marcação mais dura o complica e o impede de jogar seu futebol. Poucas vezes Ronaldinho conseguiu sair da marcação com um passe. Nas demais, perdia a bola - como sempre.
Kaká foi um pouco mais apagado - ainda assim, novamente, melhor do Brasil em canpo. Lúcio teve uma boa atuação; Zé Roberto também, mesmo cometendo deslizes que, contra uma Seleção mais forte, resultariam em gols.
É estranho que, nesse jogo, o primeiro gol da Seleção tenha saído de uma dupla de ataque apagada como Ronaldo-Adriano. O Fenômeno, como sempre, chama muita marcação e, já no segundo tempo, cercado por três marcadores, finalmente parece ter se tocado que não iria passar por eles - e preferiu o toque ao Imperador Adriano. Chute forte, gol. Adriano teve atuação discreta. Mas se apresentava para receber as bolas. E foi recompensado com seu primeiro gol em Copas do Mundo.
A entrada de Robinho mudou um pouco o jogo. Adriano subiu mais ao ataque e o moleque do Real Madrid corria para buscar todas as bolas. Mas é incrível como consegue ser ineficiente! Robinho acaba sendo um Denílson. Entra com explosão, de certo modo, desequilibra o jogo, dá velocidade... mas o time vai a lugar nenhum. Não há objetivo.
Já Fred... bem, o menino entrou aos 40 minutos. Pegou na bola duas vezes. Mas mostrou o que é o poder de decisão de um jogador - e aqui vale comparar Fred a Robinho. No primeiro lance de Fred, que originou o 2º gol brasileiro, muitos dariam crédito a Robinho, que chutou uma bola venenosa. Mas estudem o lance: Fred recebe um passe e, de costas, gira. Um giro quase perfeito, não fosse uma pequena trapalhada cometida pelo atacante do Lyon, perdendo o domínio de bola para o zagueiro australiano. Mas a bola sobrou para Fred que completou o giro e deu um passe magistral. Fiquei boquiaberto! Que visão de jogo de Fred - de costas, olhou, viu o companheiro, fez o giro perfeito e deu o passe. A bola estava no ponto para Robinho marcar. O menino chutou, mas não deu. Foi na trave! Assim, a pelota voltou aos pés de quem teve a genialidade de criar o lance: Fred fez, merecidamente, seu gol. Esse é o cara!
Em uma segunda oportunidade, Fred criou uma jogada com Cafu - única jogada correta de Cafu no jogo - que desmontou o lado esquerdo australiano. Coisa que nem Kaká tinha feito, pois o meia foi mais eficiente pela direita. Infelizmente, a segunda jogada de Fred não foi concluída. Mas mostrou o talento do rapaz. Abre o olho, Parreira! Bota esse menino para jogar.
Saldo final, Brasil 2 X 0 Austrália. Bom? Em termos. A Seleção foi irregular. Ronaldo e Adriano não recebem a bola - quando recebem, concluem mal. Ronaldinho não encontra seu espaço. Robinho encontra, mas não sabe o que fazer com ele. Kaká acaba trabalhando sozinho. Destaques mesmo só para ele e para Fred, além de Lúcio e Juan - novamente, bom trabalho da dupla de zaga. Os volantes merecem destaque? Não. Atuaram bem, mas cometeram falhas de marcação que, contra uma seleção experiente, seria fatal.
Nota patética: Perdi a conta de quantas vezes jogador australiano estava na cabeça-de-área brasileira com a bola dominada e, ao seu lado, direito ou esquerdo, vinha um australiano em velocidade entrando na área. O que o jogador fazia? "Enfiava" a bola? - jogada básica e quase sempre eficiente? - NÃO! Simplesmente não sabia o que fazer com a pelota nos pés e ou a perdia, ou a chutava na última fileira da arquibancada. Ora... vão aprender a jogar futebol!
Ronaldinho é o melhor do mundo?
Luiz Felipe Pedone
18/06/2006 às 21:12
Ronaldinho Gaúcho é um ótimo garoto propaganda. E só. Desde 2002, quando ele decidiu o jogo contra a Inglaterra, eu espero alguma atuação que faça justiça ao título de melhor do mundo. A primeira atuação contra o Real Madrid no último Campeonato Espanhol foi sensacional? Sim, mas todos nós sabemos que não há defesa nos Galácticos. As atuações nas Champions League foram boas, sim. Mas na final, quando o time mais precisava dele, após o gol do Arsenal, ele jogou bem? Não.
Eu sou fã da categoria do Gaúcho, mas do jeito que ele está jogando não há cabimento mantê-lo no time titular. Ele pode, em um lance decidir um jogo, mas para isso devemos agüentar 89 minutos de falta de inspiração e vontade?
No jogo contra a Croácia Ronaldinho fez um primeiro tempo razoável. No segundo tempo, sumiu. Hoje, mais uma vez, esqueceu de jogar. Não corria para receber, quando estava com a bola não buscava jogadas rápidas e várias vezes matou a seleção. Para mim, o pior em campo.
Eu busco alguma explicação para Parreira não substituí-lo. Talvez a Nike, com seu poder absurdo sobre a CBF, talvez interesses da própria CBF e, quem sabe, até da Globo. Ele é o showman, ele é o gênio. Mas se ele quer realmente manter essa badalação toda, tem que começar a jogar em jogos importantes e fazer como os grandes, aqueles mesmo que toda a mídia fez questão de comparar com o dentuço, fizeram: ser O CARA quando todos esperam.
Ele tem, no mínimo, mais dois jogos para convencer. Se não convencer, é bem provável que estes sejam os últimos dois jogos da seleção nesta Copa. Ter o melhor do mundo no time e ele só atrapalhar é o primeiro passo para o fracasso.